Tão depressa estava no braço do sofá em pé, como no instante a seguir chorava como nunca tinha ouvido e o sangue escorria pela cabeça.
As mãos sujas de cebola, que estava a picar para o arroz, limpas apressadamente na toalha de cozinha, a mesma que serviu para lhe estancar o sangue, agarrar nos sapatos de um e outro, no David, na carteira e voar para o hospital com o pai ainda mais atarantado que eu.
O atendimento foi muito rápido e nem vinte minutos depois estava a ser cozido.
Foi um valente o meu menino, que se portou tão bem, que só no momento da anestesia local, cerrou os olhos e com as lágrimas a cair pela carinha de sofrimento gritava " Ó Doutor, Ó Doutor, Ó Doutor"
Depois acalmou, deixou cozer sem se mexer, e teve direito a elogios de toda a equipe de serviço.
Passados dez minutos já corria na sala de espera do raio - x e mostrava orgulhosamente a cabeça a toda a gente que curiosa pelo sangue seco na camisola lhe perguntava o que tinha acontecido.
Não houve desmaios, não houve sonolência, não houve vómitos, pelo contrário, comeu como um desalmado quando chegámos cerca das 23h a casa da avó.
Infelizmente não lhe serviu de lição, pois ainda no hospital se aventurou a subir para as cadeiras e tentou saltar, e agora, cá em casa, as brincadeiras são as mesmas.
Para mim, o susto foi grande e a lição que tirei foi que por mais que se proteja, estes acidentes acontecem, e o mais importante é conseguir ter sangue frio, manter a calma para lha poder transmitir, e consegui, e com isso ajudei-o, pois apesar do medo, sentiu-se mais seguro e portou-se à altura de qualquer um de nós.



